27 de maio

Juro, meu amigo, que, ao me sentir agitado, todo o tumulto se abranda quando vejo uma criatura assim, que percorre, numa feliz tranqüilidade, a sua limitada existência, e vai se arranjando dia após dia, vendo cair as folhas, sem que isso lhe diga coisa alguma, a não ser que o inverno está chegando.

Não me censure se confesso que, à lembrança dessa inocência e dessa candura, queima-me um secreto ardor; a imagem dessa fidelidade e dessa ternura me persegue por toda parte; e eu, ardendo, por assim dizer, nesse mesmo fogo, sinto-me carente e consumido.

Farei o possível para vê-la o quanto antes; ou, pensando bem melhor, devo evitá-la. É preferível vê-la através dos olhos de seu apaixonado: talvez os meus não a vejam tal como ela agora se apresenta em minha mente. Por que, então, macular tão bela imagem?



OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

26 de maio

Pode-se dizer muitas coisas em favor das regras, mais ou menos o que se pode dizer em louvor da sociedade burguesa. Um homem que se forma de acordo com as regras jamais produzirá algo absurdo ou mau, como o que se guia pelas leis e pela moralidade nunca pode se tornar um vizinho insuportável ou um malfeitor; mas também, por mais que se diga, toda regra sufoca o verdadeiro sentimento e a verdadeira expressão da natureza.



OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

22 de maio

É comum dizer-se que a vida do homem não passa de um sonho, e esse sentimento me acompanha sempre. Quando observo os estreitos limites em que se acham encerradas as faculdades ativas e intelectuais do homem; quando vejo que o objetivo de todos os nossos esforços é prover necessidades que por si mesmas não tem outro fim senão prolongar nossa miserável existência, e que por conseqüência toda a nossa tranqüilidade, em certos pontos de nossas buscas, não passa de uma resignação sonhadora, que gozamos pintando de figuras variadas e perspectivas luminosas as quatro paredes que nos fazem prisioneiros: tudo isso, meu amigo, me reduz ao silêncio. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um mundo; porém, um mundo muito mais de pressentimentos e vagos desejos do que de realidades e forças vivas. Então tudo me flutua ante os olhos, e continuo sorrindo e sonhando em minha jornada através do mundo.

Confesso-lhe com tranqüilidade (pois sei o que você me responderia) que são mais felizes aqueles que, como as crianças, vivem despreocupadamente o cotidiano, levam suas bonecas para passear, vestem-nas, despem-nas; rondam, com um respeito enorme, o armário onde a mamãe trancou os doces e, quando conseguem a guloseima cobiçada, engolem-na avidamente, gritando: “Mais!...” São criaturas felizes. E também são felizes os que dão nomes pomposos às suas ocupações frívolas, ou mesmo às suas paixões, e consideram-nas como obras de gigantes, empreendidas para a salvação e a prosperidade da sociedade humana. Bem aventurados os que podem viver assim! Mas quem reconhece com humildade para onde as coisas se conduzem, observa também como todo burguês feliz sabe transformar seu pequeno jardim num paraíso; e vê com que ardor também o miserável prossegue em sua rota, suportando o peso do fardo, pois todos, em suma, aspiram igualmente a desfrutar, um minuto mais, a luz do sol _ quem observa tudo isso resta tranqüilo e também feliz, porque compartilha a existência humana. E, por mais limitados os seus poderes, traz sempre no coração o doce sentimento da liberdade, e sabe que poderá deixar este cárcere quando quiser.


OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

17 de maio

Conheci muitas pessoas, mas ainda não encontrei nenhuma companhia.

Se me perguntar como é a gente daqui, direi: como a de todo lugar. Coisa bem uniforme, a espécie humana. A maior parte gasta grande parte do seu tempo trabalhando para viver, e o pouco que lhe resta pesa-lhe de tal modo que procura todos os meios para desfazer-se desse tempo livre. Oh, destino dos homens!

Mas é gente muito boa! Se alguma vez me esqueço de mim, se alguma vez experimento com eles os raros prazeres que ainda são concedidos aos homens, como conversar animadamente, com franqueza e cordialidade, em torno de uma mesa bem servida; combinar um passeio, um baile de última hora ou qualquer outra diversão agradável, isso produz em mim um efeito excelente, contanto que não me ponha a cismar que em meu ser existem muitas outras faculdades que podem se enfraquecer por falta de uso, e que devo ocultar cuidadosamente! Ah! Isso constrange o coração... E, no entanto ser incompreendido é o destino de muitos de nós.

Eu deveria dizer: “Você é um insensato; procura o que não pode encontrar nesse mundo”.

 
OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

15 de maio


As pessoas simples deste lugar já me conhecem e gostam de mim, particularmente as crianças. Mas tive uma triste constatação.
As pessoas de alta posição social conservam habitualmente uma fria distância da gente do povo, como se julgassem perder algo caso dela se aproximassem; e depois há os levianos e maldosos, que fingem descer até os humildes para, com isso, melhor feri-los.
Bem sei que não somos iguais, nem o poderíamos ser; mas acho que todo aquele que julga ser necessário afastar-se do que chamamos de povo para fazer-se respeitar é tão censurável quanto o covarde que se esconde do inimigo por medo de ser derrotado.




OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

13 de maio


Não há nada mais desigual e volúvel que meu coração.
Também, trato meu pobre coração como se fosse uma criança doente: dou-lhe tudo o que pede. Ma não diga a ninguém: há pessoas que não me compreenderiam.


OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

12 de maio


Não sei se espíritos enganadores pairam sobre este lugar, ou se é no meu coração que está a ardente e celeste fantasia que fornece uma atmosfera de paraíso a tudo o que me rodeia.
Nesse lugar vejo freqüentemente renascerem os costumes patriarcais; como outrora, vejo os homens virem conhecer, junto à fonte, as mulheres que serão suas esposas e, por sobre a água que cai, flutuarem os espíritos benfazejos. Apenas quem nunca desfrutou o frescor de uma fonte, após fatigar-se duramente sob um sol de verão, seria incapaz de sentir tudo isso.


OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

10 de maio


Uma serenidade maravilhosa apoderou-se de todo o meu ser, semelhante às doces manhãs de primavera que venho saboreando intensamente. Estou sozinho, e felicito-me por viver neste lugar, feito para almas como a minha.
Meu amigo, se o dia começa a raiar à minha volta, se o mundo que me cerca e o céu inteiro descansam no meu peito como a imagem de uma bem-amada, então suspiro e digo para mim mesmo: “Ah! Caso pudesse se exprimir, caso pudesse passar para o papel o que em você sente viver com tanto ardor e tamanha abundância, de forma que ali estivesse o espelho de sua alma, como sua alma é o espelho de Deus infinito!...” Ah, meu amigo... Mas me sufoco, esmoreço diante da magnitude dessas visões.





OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe

4 de maio de 1771


Sinto-me feliz por ter partido! O coração do homem, meu caro amigo, é um mistério indecifrável! Deixá-lo, uma pessoa a quem tanto estimo e de quem era inseparável, e mesmo assim estar feliz! Sei que me perdoa. Porém, todas as minhas outras relações não teriam sido escolhidas aleatoriamente pelo destino para torturar um coração como o meu?
Oh! Mas o que é o homem, sempre a lamentar-se de si mesmo? Quero corrigir-me, caro amigo, e prometo que o farei; não quero mais, como tenho feito até agora, remoer os males que o destino nos reserva; quero gozar o presente, e considerar o passado apenas passado. Sem dúvida, você tem razão, meu bom amigo: nesse mundo haveria menos sofrimento se os homens (só Deus sabe por que eles são assim!) não se ocupassem, com tanta imaginação, em fazer voltar a lembrança das dores passadas, em vez de suportar um presente tolerável.
A propósito, sinto-me muito bem aqui. A solidão é para minha alma um bálsamo precioso nesse paraíso terrestre, e esta primavera me aquece o coração em todo o seu ardor, esse meu coração que freqüentemente estremece de frio. Cada árvore, cada arbusto é um ramalhete de flores, e eu gostaria de me transformar numa abelha para esvoaçar nesta atmosfera perfumada, e dela tirar todo alimento.





OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
Johann Wolfgang von Goethe




ser feliz




Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante: assusto-me.
Sou tão medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que não tem pudor, as leis a obedecer, o assassinato – tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam ao ver sangue: o estudante de medicina com o rosto pálido e os lábios brancos diante do primeiro cadáver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus. Tenho medo da lei natural que a gente chama de Deus. O temor. Os suicidas muitas vezes se matam porque tem medo de morrer. Não suportam a tensão crescente da vida e da espera do pior – e se matam para se verem livres da ameaça.
A gente sai de um Alfa para um Ômega e se destrói e trabalha e diverte e... Para quê? Caminhamos para um vórtice – irremediavelmente.
Não fazer nada pode ser ainda a solução.
Iam confundir isto com suicídio mas é mera coincidência. Tem sentido correr tanto atrás da felicidade, será que basta ser feliz? Será que ser feliz é um estado de tolerância?



Clarice Lispector - Um Sopro de Vida

aos (im)possíveis leitores

"Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu?"
Clarice Lispector

sobre mim...

“Sempre tive a sensação de mal-estar no mundo, uma sensação de não caber no meu espaço, um desconforto diante de meus pares – eu me pergunto: tenho pares? Eu sabia que em mim há uma mulher que tento esconder ferozmente. Tenho medo que as pessoas identifiquem meus excessos, essa quantidade absurda de pernas e braços que camuflo sob a roupa que visto. O que diriam se soubessem das muitas que vivem em mim e tentam bravamente, numa luta corporal, projetar-se do meu corpo? Tomar-me-iam por uma aberração?”

Clarice Lispector