As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuissobre um fundo de manchas já da cor da terra-como são belas as tuas mãos pelo quanto lidaram,acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços datua cadeira predileta,uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, viestealimentando na terrível solidão do mundo,como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida - que transcende a própria vida...e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
As mãos do meu Pai - Mário Quintana
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as mãos do meu pai
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if
Anunciação - BoticelliE até hoje não me esqueciDo anjo da anunciação no quadro de Boticelli:como pode alguémapresentar-se ao mesmo tempo tão humildee cheio de tamanha dignidade?Oh! Tão soberanamente inclinado...Se pudéssemos ser como ele!Os anjos dão tudo de sisem jamais se despirem de nada.
If - Mario Quintana
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na minha rua
Na minha rua há um menininho doente.Enquanto os outros partem para a escola,Junto à janela, sonhadoramente,Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente,Que uma canção napolitana engrola.E pouco a pouco, gradativamente,O sofrimento que ele tem se evola. . .
Mas nesta rua há um operário triste:Não canta nada na manhã sonoraE o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente. . .E está compondo este soneto agora,Pra alminha boa do menino doente...
Na minha rua - Mário Quintana
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o silêncio
O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativoComo um filme que houvesse perdido de repente o som.Vejo homens, mulheres: peixes abrindo e fechando a boca num aquário.Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios...Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavaisComo a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,Obrigado a ficar olhandoIntermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso...Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!Nem do outro...
O silêncio - Mário Quintana
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a carta
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha cartaamarelecida,Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...Eu tenho um medoHorrívelA essas marés montantes do passado,Com suas quilhas afundadas, comMeus sucessivos cadáveres amarrados aos mastrose gáveas...Ai de mim,Ai de ti, ó velho mar profundo,Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!
A carta - Mário Quintana
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ao longo das janelas mortas
Ao longo das janelas mortasMeu passo bate as calçadas.Que estranho bate!... SeráQue a minha perna é de pau?Ah, que esta vida é automática!Estou exausto da gravitação dos astros!Vou dar um tiro neste poema horrível!Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso Senhor,[as prostitutas, os mortos!Venham ver a minha degradação,A minha sede insaciável de não sei o que,As minhas rugas.Tombai, estrelas de conta,Lua falsa de papelão,Manto bordado do céu!Tombai, cobri com a santa inutilidade vossaEsta carcaça miserável de sonho...
Ao longo das janelas mortas - Mário Quintana
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olho as minhas mãos
Olho as minhas mãos: elas só não são estranhasPorque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-lasAssim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...Fechá-las, de repente,Os dedos como pétalas carnívoras !Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamentoComo tecem as teias as aranhas.A que mundoPertenço ?No mundo há pedras, baobás, panteras,Águas cantarolantes, o vento ventandoE no alto as nuvens improvisando sem cessar.Mas nada, disso tudo, diz: "existo".Porque apenas existem...Enquanto isto,O tempo engendra a morte, e a morte gera os deusesE, cheios de esperança e medo,Oficiamos rituais, inventamosPalavras mágicas,FazemosPoemas, pobres poemasQue o ventoMistura, confunde e dispersa no ar...Nem na estrela do céu nem na estrela do marFoi este o fim da Criação !Mas, então,Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos ?Quem faz - em mim - esta interrogação ?
Olho as Minhas Mãos - Mário Quintana
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