Ah! Não ser mais que a sombra duma sombraPor entre tanta sombra igual a mim!
Florbela Espanca
quero solidão
Por mim, e por vós, e por mais aquiloque está onde as outras coisas nunca estãodeixo o mar bravo e o céu tranqüilo:quero solidão.Meu caminho é sem marcos nem paisagens.E como o conheces ? - me perguntarão. -Por não Ter palavras, por não ter imagem.Nenhum inimigo e nenhum irmão.Que procuras ?Tudo.Que desejas ?Nada.Viajo sozinha com o meu coração.Não ando perdida, mas desencontrada.Levo o meu rumo na minha mão.A memória voou da minha fronte.Voou meu amor, minha imaginação ...Talvez eu morra antes do horizonte.Memória, amor e o resto onde estarão?Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !Estandarte triste de uma estranha guerra ... )Quero solidão.
Despedida - Cecília Meireles
Marcadores: Cecília Meireles
o rouxinol e a rosa
_ Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
_ Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. – Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
_ Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.
_ Eis um verdadeiro apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.
_ Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.
_ Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
_ É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
_ Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
_ Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.
_ Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.Subitamente, abriu as asas pardas e voou.Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
_ Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.
_ Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?
_ Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.
_ Dize. Não tenho medo.
_ Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
_ A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.
_ Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
_ Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
_ Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa .
_ Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
_ Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.
_ Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
_ Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. – Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.A moça franziu a testa.
_ Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
_ És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.
_ Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... – e a moça levantou-se e entrou em casa.
_ Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...
O Rouxinol e a Rosa - Oscar Wilde
Marcadores: Oscar Wilde
aviso da lua que menstrua
Moço, cuidado com ela!Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...Imagine uma cachoeira às avessas:cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moçoàs vezes parece erva, parece heracuidado com essa gente que geraessa gente que se metamorfoseiametade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidadese ainda volta pro lugar que é o mesmo lugarmas é outro lugar, aí é que está:cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingredienteque vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!Tá acostumada a viver por dentro,transforma fato em elementoa tudo refoga, ferve, fritaainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapoué que chegou a sua vez!Porque sou muito sua amigaé que tô falando na "vera"conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta deladelicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidadoou sem os devidos cortejos...Às vezes pela ponte de um beijojá se alcança a "cidade secreta"a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernascai na condição de ser displicentediante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidianoque a mulher extrai filosofiacozinhando, costurandoe você chega com a mão no bolsojulgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejadotão preocupado em rosnar, ladrar e latirentão esquece de morder devagaresquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredirchama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...ora, não ofende. Enaltece, elogia:comparando rainha com rainhaóvulo, ovo e leitepensando que está agredindoque tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
Aviso da Lua que Menstrua - Elisa Lucinda
Marcadores: Elisa Lucinda
na minha rua
Na minha rua há um menininho doente.Enquanto os outros partem para a escola,Junto à janela, sonhadoramente,Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente,Que uma canção napolitana engrola.E pouco a pouco, gradativamente,O sofrimento que ele tem se evola. . .
Mas nesta rua há um operário triste:Não canta nada na manhã sonoraE o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente. . .E está compondo este soneto agora,Pra alminha boa do menino doente...
Na minha rua - Mário Quintana
Marcadores: Mário Quintana
feliz
— E daí em diante ele e toda a família dele foram felizes.
— Pausa — as árvores mexeram no quintal, era um dia de verão. — Escrevam em resumo essa história para a próxima aula.
Ainda mergulhadas no conto as crianças moviam-se lentamente, os olhos leves, as bocas satisfeitas.
— O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana,
— Repita a pergunta…?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
— Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
— Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? — repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
— Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…
— Ser feliz é para se conseguir o quê?
Clarice Lispector - Perto do coração selvagem
Marcadores: Clarice Lispector
tejo
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeiaPorque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes naviosE navega nele ainda,Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,A memória das naus.
O Tejo desce de EspanhaE o Tejo entra no mar em Portugal.Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeiaE para onde ele vaiE donde ele vem.E por isso porque pertence a menos gente,É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.Para além do Tejo há a AméricaE a fortuna daqueles que a encontram.Ninguém nunca pensou no que há para alémDo rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos
Marcadores: Alberto Caeiro
instantes
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções,por muitos anos que vivamos,apesar de viagens, experiências, realizações, sonhos, saber...Vivemos tudo – o humano e universal –nuns pequenos instantes, obscuros e essenciais.
Cecília Meireles
Marcadores: Cecília Meireles
estas mãos
Olha para estas mãosde mulher roceira,esforçadas mãos cavouqueiras.
Pesadas, de falanges curtas,sem trato e sem carinho.Ossudas e grosseiras.
Mãos que jamais calçaram luvas.Nunca para elas o brilho dos anéis.Minha pequenina aliança.Um dia o chamado heróico emocionante:– Dei Ouro para o Bem de São Paulo.
Mãos que varreram e cozinharam.Lavaram e estenderamroupas nos varais.Pouparam e remendaram.Mãos domésticas e remendonas.
Íntimas da economia,do arroz e do feijãoda sua casa.Do tacho de cobre.Da panela de barro.Da acha de lenha.Da cinza da fornalha.Que encestavam o velho barreleiroe faziam sabão.
Minhas mãos doceiras...Jamais ociosas.Fecundas, imensas e ocupadas.Mãos laboriosas.Abertas sempre para dar, ajudar,unir e abençoar.
Mãos de semeador afeitasà sementeira do trabalho.Minhas mãos raízesprocurando a terra.
Semeando sempre.Jamais para elasos júbilos da colheita.
Mãos tenazes e obtusas,feridas na remoção de pedras e tropeços,quebrando as arestas da vida.Mãos alavancasna escava de construções inconclusas.
Mãos pequenas e curtas de mulherque nunca encontrou nada na vida.Caminheira de uma longa estrada.Sempre a caminhar.Sozinha a procurar,o ângulo perdido, a pedra rejeitada.
Estas mãos - Cora Coralina
Marcadores: Cora Coralina
passado
... quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.
Marcel Proust
Marcadores: Marcel Proust









