Olha para estas mãosde mulher roceira,esforçadas mãos cavouqueiras.
Pesadas, de falanges curtas,sem trato e sem carinho.Ossudas e grosseiras.
Mãos que jamais calçaram luvas.Nunca para elas o brilho dos anéis.Minha pequenina aliança.Um dia o chamado heróico emocionante:– Dei Ouro para o Bem de São Paulo.
Mãos que varreram e cozinharam.Lavaram e estenderamroupas nos varais.Pouparam e remendaram.Mãos domésticas e remendonas.
Íntimas da economia,do arroz e do feijãoda sua casa.Do tacho de cobre.Da panela de barro.Da acha de lenha.Da cinza da fornalha.Que encestavam o velho barreleiroe faziam sabão.
Minhas mãos doceiras...Jamais ociosas.Fecundas, imensas e ocupadas.Mãos laboriosas.Abertas sempre para dar, ajudar,unir e abençoar.
Mãos de semeador afeitasà sementeira do trabalho.Minhas mãos raízesprocurando a terra.
Semeando sempre.Jamais para elasos júbilos da colheita.
Mãos tenazes e obtusas,feridas na remoção de pedras e tropeços,quebrando as arestas da vida.Mãos alavancasna escava de construções inconclusas.
Mãos pequenas e curtas de mulherque nunca encontrou nada na vida.Caminheira de uma longa estrada.Sempre a caminhar.Sozinha a procurar,o ângulo perdido, a pedra rejeitada.
Estas mãos - Cora Coralina
estas mãos
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passado
... quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.
Marcel Proust
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a demissão do derúndio (por decreto)
O nosso governador José Roberto Arruda, (de Brasília), se superou ao “demitir” o Gerúndio na capital federal através de decreto-lei.
A demissão do Gerúndio:Deu polêmica oficial...Endorréia, gerundismo:É uma praga cultural...Infesta a Língua Portuguesa:E o nosso tempo verbal...
O governo em Brasília:No Diário Oficial...Demitiu o tal Gerúndio:No Distrito Federal...Mas o sujeito é teimoso:E não some do jornal...
O fato ganhou a mídia:A imprensa noticiou...É uma piada da boa:O mundo se gerundiou...Dólar e telemerchandising:No gerúndio se enroscou...
É um vício de linguagem:Em qualquer repartição...No discurso, no artigo:Em concurso e redação...Na escola e na rua:Na favela e na mansão...
Gerúndio na boca do povo:Chacota já se tornou...Blá.Blá.Blá...Nhemnhemnhem:O fato se proliferou...Virou piada no Céu:São Pedro me telefonou...
É gerúndio no Planalto:No Congresso Nacional...No telefone e na tela:O gerundismo é total...O gerúndio se abunda:É preferência nacional...
Tem gerúndio na tv:No jornal e na novela...A modelo gerundia:Gerundando-se magrela...Ouve-se tanto gerúndio:A alma da gente, gela...
Terá fim o gerundismo?!Com tanta ignorância...Teleanalfabetismo:Leitura sem importância...O Português não tem vez:Norma Culta, que distância...
Fazer e estar fazendo:Estar amando e amar...Ligar e estar ligando:Informando e informar...Gerúndio e Infinitivo:Cada qual tem seu lugar...
Negociando - providenciando:Ouve-se no dia-a-dia...Expressões inadequadas:Palavras sem sintonia...Culto à ineficiência:É voz da burrocracia...
Ligando nós estaremos:Documento prescrevendo...Todo mundo enrolando:Gerundismo pervertendo...A máquina não funciona:É o gerúndio corrompendo...
É uma praga virulenta:Haja contaminação...Vem da Língua Inglesa:Em erro de tradução...Telemarketing e Intermídia:Fazem a divulgação...
Um basta ao gerundismo:Ao infinitivo vou voar...Tenho verbo, falta verba:Para poder participar...Estou "rezando" demais:Para a vida melhorar...
A demissão do Gerúndio(por decreto) - Gustavo Dourado
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ressalva
Este livro foi escritopor uma mulherque no tarde da Vidarecria e poetiza sua própriaVida.
Este livrofoi escrito por uma mulherque fez a escalada daMontanha da Vidaremovendo pedrase plantando flores.
Este livro:Versos… NãoPoesia… Nãoum modo diferente de contar velhas estórias.
Ressalva - Cora Coralina
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o meu olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.Tenho o costume de andar pelas estradasOlhando para a direita e para a esquerda,E de, vez em quando olhando para trás...E o que vejo a cada momentoÉ aquilo que nunca antes eu tinha visto,E eu sei dar por isso muito bem...Sei ter o pasmo essencialQue tem uma criança se, ao nascer,Reparasse que nascera deveras...Sinto-me nascido a cada momentoPara a eterna novidade do Mundo...Creio no mundo como num malmequer,Porque o vejo. Mas não penso nelePorque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele(Pensar é estar doente dos olhos)Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,Mas porque a amo, e amo-a por isso,Porque quem ama nunca sabe o que amaNem sabe por que ama, nem o que é amar ...Amar é a eterna inocência,E a única inocência não pensar...
O meu olhar - Alberto Caeiro
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os ipês estão floridos

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ode marítima

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ora até que enfim..., perfeitamente...
Ora até que enfim..., perfeitamente...Cá está ela!Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus estou doido!Que tudo quanto dei me voltou em lixo,E, como cuspo atirado ao vento,Me dispersou pela cara livre!Que tudo que fui se me atou aos pés,Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!Que tudo quanto pensei me faz cócegas na gargantaE me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,Isto é uma solução,Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!A organização de poemas relativos à vastidão de cada assuntoresolvido com vários -Também não é novidade.Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universopara o despejar comia-o.Com esforço, mas era para bom fim.Ao menos era para um fim.E assim como sou não tenho fim nem vida...
Ora até que enfim..., perfeitamente... - Fernando Pessoa
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