olho as minhas mãos
Olho as minhas mãos: elas só não são estranhasPorque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-lasAssim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...Fechá-las, de repente,Os dedos como pétalas carnívoras !Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamentoComo tecem as teias as aranhas.A que mundoPertenço ?No mundo há pedras, baobás, panteras,Águas cantarolantes, o vento ventandoE no alto as nuvens improvisando sem cessar.Mas nada, disso tudo, diz: "existo".Porque apenas existem...Enquanto isto,O tempo engendra a morte, e a morte gera os deusesE, cheios de esperança e medo,Oficiamos rituais, inventamosPalavras mágicas,FazemosPoemas, pobres poemasQue o ventoMistura, confunde e dispersa no ar...Nem na estrela do céu nem na estrela do marFoi este o fim da Criação !Mas, então,Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos ?Quem faz - em mim - esta interrogação ?
Olho as Minhas Mãos - Mário Quintana
Marcadores: Mário Quintana
distantes demais
Somos Somente a fotografia.Dois navegantes perdidos no caisDistantes demaisSomos instantes, palavras, poesiaDois delirantes ficando reaisDistantes demaisNoites de sol, loucos de amar,Quem poderia nos alcançar.Eu e você, sem perceber,Fomos ficando iguais,Longe,Distantes demais
Composição: Lenine/Dudu Falcão
dia internacional da mulher
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Ser Mulher - Gilka Machado
o que me dói
pequeno poema
O tempo é indivisível. Dize,Qual o sentido do calendário?Tombam as folhas e fica a árvore,Contra o vento incerto e vário
A vida é indivisível. MesmoA que se julga mais dispersaE pertence a um eterno diálogoA mais inconseqüente conversa.
Todos os poemas são um mesmo poema,Todos os porres são o mesmo porre,Não é de uma vez que se morre...Todas as horas são horas extremas...
E todos os encontros são adeuses!
Pequeno Poema Didático - Mário Quintana
tire seu riso do caminho
Tire o seu riso do meu caminho,que eu quero passarcom a minha dor...
Adaptado da música Piercing, de Zeca Baleiro
esses rostos
Foto: Sebastião Salgado
Esses rostos, que gritamsem mover a boca, já não sãorostos de outros. Essesrostos deixaram de serconvenientemente distantese etéreos, pretextos ingênuospara a caridade de consciências pesadas.
Eduardo Galeano









