Dois...

 
Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito..."
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.


Dois - Pablo Neruda

Um corpo...





Depois que um corpo...
Comporta outro corpo...
Nenhum coração
Suporta o pouco!


Alice Ruiz

Às vezes procuramos uma saída...

Quantas situações! Quantas portas! Na vida percorremos grandes distâncias, cheias de curvas arriscadas e surpresas agradáveis ou não, assim, passamos a vida toda tentando encontrar algo de que sentimos falta, não sabemos ao certo o que é, nem se vamos encontrar, mas pra isso enfrentamos todo perigo do caminho, pensando e confiando nesse triunfo final. Só quando estamos quase no fim do percurso, depois de percorrer vários caminhos e entrar por várias portas, percebemos que pegamos a estrada errada... mas aí, já não dá tempo de voltar; e nos vemos diante de uma encruzilhada, de um lado, apenas o sobreviver, carregando os dias que ainda nos restam, do outro, a possibilidade de sonhar e viver esses sonhos como se fossem reais, habitando o mundo dos sonhos! Entre realidade e sonho, procuramos uma saída que não seja nem somente um nem outro, mas sim uma saída intermediária, um lugar onde seja possível realizar sonhos, viver... como se nos tivesse sido dado uma nova partida, um novo começo...
Tem sido assim meus dias, a busca por essa saída intermediária!

A vida está lá fora...



Sim, a vida está lá fora e eu envelhecendo aqui dentro, vendo a vida passar, sem passar por ela! Apenas contemplando meus sonhos daqui sem coragem para atravessar a rua e chegar do outro lado, onde tudo acontece! O medo dessa travessia me paralisa me tornando uma mera expectadora desse imenso expetáculo que é a vida, e que está lá fora! Preciso e quero deixar os limites desta confortável janela e me arriscar, antes dos anos passarem roubando-me as condições de travessia! Se for "atropelada" durante a travessia, não tem problema, pelo menos meus pés sentirão, por alguns instantes, o chão, o movimento, a tortuosidade e dureza do caminho, enquanto meus olhos, acostumados somente à paisagem que se podia ver da janela, irão se deleitar e encantar olhando as pessoas, as árvores, as flores... a vida que quero viver... e que está lá fora!

Folhas de rosa...



Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo …

E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente …

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado…

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mals fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia…


Folhas de rosa - Florbela Espanca

Mentiram-me...


Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.


Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente.Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.


A Implosão da Mentira - Affonso Romano de Sant'Anna

Tenho medo de ti e deste amor...



Tenho medo de ti e deste amor
Que à noite se transforma em verso e rima.
E o medo de te amar, meu triste amor,
Afasta o que aos meus olhos aproxima.

Conheço as conveniências da retina.
Muita coisa aprendi dos seus afetos:
Melhor colher os frutos na vindima
Que buscá-los em vão pelos desertos.

Melhor a solidão. Melhor ainda
Enlouquecendo os meus olhos, o escuro,
Que o súbito clarão de aurora vinda

Silenciosa dos vãos de um alto muro.
Melhor é não te ver. Antes ainda
Esquecer de que existe amor tão puro.


Sonetos que não são IV - Hilda Hilst - Roteiro do Silêncio

Fico assim sem você...

Avião sem asa, fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola,
Piu-Piu sem Frajola
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
vão poder falar por mim

Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço,
Namoro sem abraço
Sou eu assim sem você

Tô louco pra te ver chegar
Tô louco pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas
Pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

Por quê? Por quê?

Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
vão poder falar por mim

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

Por quê?

(Fico assim sem você - {Abdullah / Cacá Moraes} - Adriana Calcanhoto - Partimpim)

Já adorava essa música...hoje... se tornou muito especial pra mim!!!

Ah! Esse amor...

Ah! Esse amor... que me consome, que me entusiasma, que me entristece, que me alegra, que me tira de órbita e me atira em seus braços... Que me coloca em sonhos, que me leva em pensamentos à você, que me faz sentir em seus braços acolhedores, que me faz desejada e amada, que me perfuma a vida, que me faz passageira de seu coração! Ah! Esse amor!...

O sol pulou minha janela...

O sol pulou minha janela pra me dar um abraço de despedida, vai descansar! Acaricia minha face, meu corpo e suavemente vai se soltando de mim, começa a deitar-se no horizonte... colore o céu num último gesto, como quem deixa um presente antes de partir! Ah! Como é bom poder ver tudo isso! Como é bom sentir! Queria que todos olhassem o céu agora e vissem esse espetáculo! Como se sentiriam melhor se deixassem um pouco suas preocupações, ambições, anseios, angustias de lado e simplesmente contemplassem! Mas o sol não pode esperar, ele já está se cobrindo com o manto leve da noite, está com muito sono, precisa dormir e sonhar!

aos (im)possíveis leitores

"Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu?"
Clarice Lispector

sobre mim...

“Sempre tive a sensação de mal-estar no mundo, uma sensação de não caber no meu espaço, um desconforto diante de meus pares – eu me pergunto: tenho pares? Eu sabia que em mim há uma mulher que tento esconder ferozmente. Tenho medo que as pessoas identifiquem meus excessos, essa quantidade absurda de pernas e braços que camuflo sob a roupa que visto. O que diriam se soubessem das muitas que vivem em mim e tentam bravamente, numa luta corporal, projetar-se do meu corpo? Tomar-me-iam por uma aberração?”

Clarice Lispector